Creatina faz mal aos rins? O que os estudos realmente mostram.

Creatina faz mal aos rins? O que os estudos realmente mostram.

Poucos suplementos são tão estudados quanto a creatina — e poucos despertam a mesma dúvida quando o assunto é segurança.

A pergunta aparece com frequência entre quem treina:

Creatina faz mal aos rins? Pode causar insuficiência renal? Aumenta a creatinina? É perigosa para quem usa durante anos?

A resposta, para pessoas saudáveis, é tranquilizadora: as evidências disponíveis não mostram que a suplementação de creatina monohidratada, utilizada de maneira adequada, cause dano aos rins.

Mas existe uma importante pegadinha nessa história.

A creatina pode aumentar a quantidade de creatinina no sangue, e isso pode fazer alguns exames parecerem indicar uma piora da função renal mesmo quando os rins não estão necessariamente sofrendo uma lesão.

E é justamente aí que grande parte da confusão começa.

Uma meta-análise publicada em 2026, reunindo 19 ensaios clínicos randomizados e um estudo crossover, encontrou aumento da creatinina sérica com a suplementação, mas não encontrou alteração significativa na taxa de filtração glomerular estimada nem na ureia. Os autores destacam, entretanto, que ainda são necessários estudos randomizados de duração superior a um ano para avaliar melhor a segurança renal em longo prazo.

Portanto, a história é menos assustadora do que parece — mas também não significa que todo mundo possa tomar qualquer suplemento sem orientação.

Por que a creatina pode aumentar a creatinina?

Para entender essa questão, primeiro precisamos separar duas palavras que parecem quase iguais:

creatina e creatinina.

A creatina é uma substância naturalmente encontrada no organismo e armazenada principalmente nos músculos. Ela participa do sistema responsável por fornecer energia rapidamente durante atividades de alta intensidade.

Quando você suplementa creatina, aumenta os estoques musculares dessa substância.

Parte da creatina é naturalmente convertida em creatinina, um produto do metabolismo que circula pelo sangue e é eliminado principalmente pelos rins.

Por isso, quando alguém começa a suplementar creatina, a creatinina sanguínea pode aumentar.

E aqui está o detalhe:

creatinina mais alta não significa automaticamente rins danificados.

A creatinina é utilizada pelos médicos para estimar a taxa de filtração glomerular, conhecida pela sigla TFG ou eGFR. Porém, esse cálculo pode ser influenciado por diversos fatores, incluindo massa muscular, alimentação, exercício intenso e uso de creatina.

Ou seja, o exame pode mudar sem que exista uma deterioração real da função dos rins.

Creatina e creatinina não são a mesma coisa

Essa diferença é fundamental.

Imagine uma pessoa que começa a tomar creatina e, algumas semanas depois, faz um exame de sangue.

A creatinina aparece um pouco mais alta.

É fácil pensar:

“Minha creatinina aumentou. Então meus rins estão piorando.”

Mas essa conclusão pode ser precipitada.

A suplementação pode aumentar a disponibilidade de creatina e, consequentemente, a formação de creatinina.

A própria National Kidney Foundation destaca que suplementos de creatina podem elevar a creatinina e fazer com que uma estimativa de eGFR baseada exclusivamente nesse marcador pareça menor do que a verdadeira função renal. O mesmo pode acontecer em pessoas com muita massa muscular ou após exercício intenso.

É por isso que um único número não deve ser interpretado isoladamente.

O que acontece com a função renal de verdade?

Essa é a pergunta mais importante.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 analisou 26 estudos envolvendo 1.036 participantes e encontrou aumento da creatinina em pessoas que suplementaram creatina.

Quando a taxa de filtração foi estimada por métodos baseados em creatinina, houve uma redução aparente.

Mas quando os pesquisadores utilizaram Cr-EDTA, um método que não depende da creatinina para avaliar a filtração renal, não encontraram diferença estatisticamente significativa.

Além disso, não foram observadas diferenças significativas em ureia, albuminúria, proteinúria ou creatinina urinária.

Isso é importante porque reforça uma explicação possível para o aparente “pior resultado” nos exames:

a creatina pode alterar o marcador usado para avaliar os rins sem necessariamente causar uma lesão renal.

Os autores da revisão consideraram que os resultados provavelmente refletem alterações no metabolismo da creatinina, e não uma lesão dos rins.

Então a creatina é segura?

Para adultos saudáveis, as evidências atuais são bastante favoráveis à segurança da creatina monohidratada quando utilizada adequadamente.

Uma meta-análise anterior, publicada em 2019, analisou estudos sobre função renal e concluiu que a suplementação não provocou alterações compatíveis com dano renal nas doses e durações avaliadas.

Uma revisão de 2025 também concluiu que os estudos disponíveis mostram, de forma consistente, ausência de efeitos adversos relevantes sobre a função renal em indivíduos saudáveis, embora ressalte a necessidade de cautela em pessoas com doenças renais preexistentes.

Isso não significa que a creatina seja um suplemento que qualquer pessoa deva tomar sem considerar seu contexto.

Significa que o medo de que a creatina, por si só, destrua os rins de uma pessoa saudável não é sustentado pelas melhores evidências disponíveis atualmente.

E quem já tem doença renal?

Aqui a conversa muda.

Pessoas com doença renal crônica, alterações importantes nos exames renais ou histórico de problemas nos rins não deveriam simplesmente começar a tomar creatina por conta própria.

Nesse grupo, a avaliação precisa ser individualizada.

A National Kidney Foundation recomenda que pessoas com doença renal consultem profissionais de saúde antes de utilizar suplementos, porque determinadas substâncias podem representar riscos dependendo do estágio da doença, dos medicamentos utilizados e das condições individuais.

Além disso, justamente porque a creatina pode alterar a creatinina, interpretar exames de alguém que suplementa exige atenção.

Em determinadas situações, o profissional pode considerar outros marcadores, como a cistatina C, ou métodos mais precisos de avaliação da filtração renal.

A National Kidney Foundation explica que estimativas que combinam creatinina e cistatina C podem ser mais precisas do que utilizar apenas a creatinina.

“Mas eu fiz exame e minha creatinina aumentou”

Não interrompa nem continue a suplementação simplesmente com base nessa informação sem conversar com o profissional que acompanha seus exames.

O contexto importa.

Uma creatinina elevada pode ter diversas explicações.

Entre os fatores capazes de influenciar o resultado estão:

  • suplementação com creatina;
  • grande quantidade de massa muscular;
  • exercício físico intenso;
  • consumo elevado de carne;
  • desidratação;
  • determinadas condições médicas;
  • alguns medicamentos.

A própria National Kidney Foundation lista a creatina, a alta massa muscular e exercícios intensos entre os fatores que podem influenciar a creatinina e a estimativa de eGFR.

Por isso, o melhor caminho é informar ao profissional de saúde se você usa creatina, quanto usa e há quanto tempo.

Essa informação pode mudar a interpretação do exame.

A creatina causa desidratação e sobrecarrega os rins?

Essa é outra preocupação bastante comum.

Durante muito tempo, circulou a ideia de que a creatina “puxaria água para os músculos” e, por isso, poderia provocar desidratação ou sobrecarregar os rins.

Os estudos controlados não sustentam essa ideia como uma consequência inevitável da suplementação.

O problema é que muitas pessoas confundem a retenção de água dentro do músculo com desidratação do organismo.

A creatina aumenta o conteúdo de água intracelular, especialmente durante a fase inicial de suplementação. Isso não significa que o corpo esteja ficando desidratado.

Uma revisão recente sobre a segurança da creatina também concluiu que as evidências disponíveis não sustentam as alegações de que a suplementação provoque desidratação ou aumento consistente de cãibras durante o exercício.

Preciso tomar uma dose enorme para ter resultado?

Não.

A creatina monohidratada é uma das formas mais estudadas e utilizadas.

Uma estratégia comum é consumir aproximadamente 3 a 5 gramas por dia, de forma consistente.

Existe também a chamada fase de saturação, em que são utilizadas doses maiores durante alguns dias para aumentar mais rapidamente os estoques musculares.

Mas a fase de saturação não é obrigatória.

Tomar uma quantidade menor diariamente também permite alcançar níveis elevados de creatina muscular, apenas levando mais tempo.

E não existe vantagem em assumir que “quanto mais, melhor”.

Como acontece com qualquer suplemento, utilizar doses desnecessariamente altas não torna automaticamente o resultado melhor.

E se eu tomar creatina durante anos?

Essa é uma das questões em que precisamos ser honestos sobre os limites da ciência.

A creatina é muito estudada, inclusive em estudos de duração relativamente longa, e os dados disponíveis são tranquilizadores para pessoas saudáveis.

Mas não podemos afirmar que qualquer dose, em qualquer pessoa, durante qualquer período de tempo, seja comprovadamente livre de riscos.

A meta-análise de 2026 destacou justamente essa limitação: embora os resultados não indiquem dano renal significativo, ainda são necessários mais ensaios clínicos randomizados com duração superior a um ano para esclarecer completamente a segurança renal em longo prazo.

Essa é uma distinção importante.

“Não encontramos evidência de dano” não significa “provamos que nenhum risco é possível”.

A ciência trabalha com o peso das evidências disponíveis.

E, até o momento, esse peso é bastante favorável para a creatina em adultos saudáveis.

A creatina é realmente necessária?

Também não.

Esse ponto costuma desaparecer quando falamos sobre suplementos.

A creatina pode melhorar o desempenho em determinadas atividades, especialmente aquelas que exigem esforços repetidos e de alta intensidade. Também existem pesquisas investigando possíveis aplicações além do desempenho esportivo.

Mas suplemento não é sinônimo de necessidade.

Se o objetivo é ganhar massa muscular, por exemplo, creatina pode ser uma ferramenta útil — mas ela não substitui:

treinamento adequado + alimentação suficiente + proteína adequada + sono + consistência.

Nenhum suplemento consegue compensar uma base ruim.

Como usar a creatina de maneira mais consciente?

Se você é saudável e decidiu utilizar creatina, alguns princípios simples ajudam a manter a estratégia racional.

1. Prefira creatina monohidratada

É a forma mais estudada e possui uma grande quantidade de evidências sustentando sua utilização.

Não existe necessidade de procurar uma versão extremamente sofisticada apenas porque o rótulo promete uma tecnologia diferente.

2. Evite megadoses sem necessidade

Mais creatina não significa necessariamente mais benefício.

Para muitas pessoas, uma dose diária moderada é suficiente para aumentar e manter os estoques musculares.

3. Informe o profissional de saúde

Se você realiza exames de sangue ou acompanhamento médico, informe que utiliza creatina.

Isso é especialmente importante quando o profissional está avaliando creatinina e função renal.

4. Tenha cuidado se já existe doença renal

Se você possui doença renal, histórico de alterações na função dos rins ou utiliza medicamentos que podem afetar a função renal, não trate a creatina como um suplemento universalmente seguro para você.

Converse com seu médico ou nutricionista.

5. Não confunda alteração de exame com diagnóstico

Uma creatinina mais alta depois que você começou a tomar creatina merece atenção e interpretação adequada.

Mas ela não significa automaticamente que seus rins foram danificados.

Afinal, creatina faz mal aos rins?

Para uma pessoa saudável, as evidências atuais não mostram que a creatina monohidratada, utilizada em doses apropriadas, cause dano aos rins.

O que pode acontecer é um aumento da creatinina no sangue, justamente porque a creatina participa do metabolismo que gera esse marcador.

Esse aumento pode fazer alguns cálculos baseados em creatinina sugerirem uma redução da função renal sem que exista necessariamente uma lesão verdadeira.

As evidências mais recentes reforçam essa distinção: estudos encontram aumento da creatinina, mas não demonstram alterações consistentes em marcadores mais específicos de função renal ou sinais de dano renal.

Mas existe uma ressalva importante:

pessoas com doença renal preexistente não devem assumir que os mesmos resultados se aplicam automaticamente a elas.

Nesse caso, a decisão deve ser individualizada e acompanhada por um profissional de saúde.

No fim, talvez a melhor maneira de resumir a questão seja esta:

Creatina pode aumentar a creatinina. Isso não significa necessariamente que esteja prejudicando seus rins.

Para adultos saudáveis, a ciência atual considera a creatina monohidratada um suplemento com bom perfil de segurança quando utilizada adequadamente.

E se um exame mostrar alteração depois que você começou a suplementar, não entre em pânico — mas também não ignore.

Leve o resultado ao profissional que acompanha sua saúde, informe o uso da creatina e permita que o exame seja interpretado no contexto correto.

É assim que se separa um marcador alterado de uma doença real.

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